CAMINHO DE SANTIAGO: O QUE APRENDI E LEVO PARA A VIDA #3

CAMINHO DE SANTIAGO: O QUE APRENDI E LEVO PARA A VIDA #3

Às vezes nem tudo corre como planeamos e isso traz uma mistura de sentimentos e pensamentos que fazem com que te ponhas em causa. Sim, ao longo de uma jornada de caminhada constante é completamente normal aparecerem algumas lesões e incómodos a nível físico, e claro, procuramos ao máximo superar a dor e o desconforto. Procuramos abstrair-nos pensando noutras coisas, conversando, ouvindo música e até, obviamente, anestesiando à custa de analgésicos e anti-inflamatórios e nem pomos em causa como estaremos nas semanas seguintes, já depois de termos terminado o caminho, se isso poderá pôr ou não em causa a nossa atividade habitual. Foi isso que aconteceu há 7 anos, quando fiz o caminho pela primeira vez, em que sendo eu baixinha, magrinha, tanta gente colocou em causa a minha resistência e a minha capacidade para chegar a Santiago a pé. Nessa altura, desde a primeira paragem para descansar, fui assolada por uma imensa dor no joelho que me acompanhou durante todo o caminho, mesmo durante a noite enquanto descansava. Perdi conta à quantidade de analgésicos e anti-inflamatórios que tomei e apliquei, jamais pensei em desistir, por mais dor que sentisse. Continuei dia após dia até ao final, não sei se para provar a mim mesma ou aos outros que conseguia. Obviamente que consegui, mesmo que a muito custo.

Na altura, quando regressei ao trabalho e estando eu a trabalhar numa empresa, pensei sinceramente que teria de meter baixa, pois a dor ainda se manifestou por várias semanas. Aos poucos foi dissipando após várias consultas médicas, radiografias, ecografias e massagens e felizmente consegui continuar a trabalhar.

Desta vez, no primeiro e segundo dia, senti uma dor na anca que posteriormente se manifesta no joelho. Parecia algo bem conhecido e talvez por estar a caminhar com um grupo de enfermeiras, completamente munidas de ligaduras e anti-inflamatórios, considerei que poderia continuar sem problema. Afinal desistir não fazia propriamente parte dos meus planos. No quinto dia e após ter caminhado muito tempo sozinha, com a companhia da dor no joelho e o apoio das pinças de caminhar, começa a doer-me imensamente as unhas do hálux (dedos grandes dos pés). Quando em determinado momento resolvo parar para perceber como estava, vejo que os meus dedos estão em muito mau estado. Naquele momento, com a ajuda das minhas colegas, tento protegê-los e continuar caminho, com a sensação de sentir um martelo constantemente a bater nos dedos. Naquele dia tínhamos decidido avançar mais 7kms para além do destino inicialmente previsto, para que a jornada do dia seguinte fosse menor, situação que não apelava a meu favor. Chegamos a esse primeiro destino para descansar um pouco, tomar qualquer coisa para depois continuar e até lá chegarmos, ia eu caminhando já com uma coleção de dores e perguntando-me para que me estaria a sujeitar àquela situação. Só pensava que quando chegasse ao destino, poderia apanhar um táxi para percorrer os 7kms em falta que se refletiriam em mais umas 2h30 de caminhada.

Mas pensar nisso seria quase como desistir. Logo eu, sempre tão lutadora, decidida, determinada… Desistir?! Sentia a frustração e a vergonha, pois via tantos peregrinos mais velhos a continuar e eu ia desistir? Ouvia os meus próprios pensamentos a porem-me em causa, em auto julgamento… Afinal, estamos numa cultura em que os fortes não desistem, nem que se rasguem todos. Pelo contrário, quanto mais te doer e ainda assim mais lutares, mais forte és, pelo menos é a ideia que temos dos guerreiros! Acontece que os verdadeiros guerreiros sabem sempre quando parar, sabem sempre até onde podem chegar e quando têm de se restabelecer.

E naquele momento, perguntei-me a quem queria provar que conseguia. Afinal, eu sei que consigo, já me tinha provado isso há 7 anos atrás. Perguntei-me para quê continuar com tanta dor e sacrifício, o que pretendia eu com tudo aquilo, seria mesmo necessário? E qual seria o preço a pagar pela minha decisão quando a caminhada terminasse?

Muito bem, pensei para mim, já sei o qual é a sensação e a experiência de ir até ao fim, já sei que consigo porque já quis provar isso a mim própria e consegui. E se experimentar agora baixar a guarda, aceitar e admitir que estou vulnerável, que estou a sofrer e a sentir dor, admitir que me apetece parar, relaxar e cuidar do que em mim está magoado?

“Vou de táxi!” – Avisei eu para espanto do grupo, que obviamente me incentivou a continuar. Mas desta vez eu decidi que ia ser diferente e enquanto elas continuaram caminho, eu fui apanhar um táxi, com uma mulher taxista que se revelou muito simpática e empática, tal como a senhora da pensão onde ficaríamos naquela noite e que logo me disse: O santo não pede milagres e a saúde e o bem estar têm de estar primeiro!

Subi para o quarto confortável, onde aproveitei para tomar um banho quente, cuidar das dores no joelho e nos dedos dos pés. No fundo, mimar-me que era o que eu precisava. Enquanto esperava pelas minhas companheiras, agradeci à vida pela aprendizagem naquele dia, que creio mesmo que foi a aprendizagem que fui buscar desta vez, durante esta jornada.

Ser humilde para aceitar as minhas vulnerabilidades, saber quando devo parar sem que isso ponha em causa a minha integridade, bem pelo contrário. Compreender que nem sempre desistir é uma derrota ou sinal de fraqueza, mas antes de respeito e amor próprio, como também uma escolha de abrir mão de algo que não te está a fazer bem. Que até podes insistir, mas que se isso te magoa, há um preço que terás de pagar. Reconhecer que nem sempre tudo corre como planeamos ou gostaríamos e aprender a tirar partido das outras hipóteses que a vida nos oferece, que não tens de lutar constantemente para fazeres algo que até sabes que consegues, porque já o fizeste antes e que na verdade não tens de provar nada a ninguém, pois quem te ama, vai amar-te sempre e de qualquer maneira. E vai sempre apoiar as tuas escolhas e decisões!

Depois disso senti-me mais leve, sem me julgar, mas com maior amor e respeito por mim e recebendo as minhas companheiras que entretanto chegaram exaustas com todo o amor, solidariedade e compaixão.

Querem saber como foi no dia seguinte? O último dia de caminhada?

Arrisquei. Saí com o meu grupo, mesmo com dor, lá consegui avançar mais 8kms. Faltavam mais 5kms para terminar, os pés estavam pior ainda, tal como a dor no joelho. Agora não hesitei… Sim, eram apenas 5kms, mas para os meus pés e joelho uma infinidade e cheguei até à Catedral de Santiago de táxi. Pois é, até esta oportunidade foi única! E assim terminei a minha jornada após percorrer 108kms a pé, 12kms de táxi, de bem comigo mesma, com a minha consciência e com imensa gratidão ao meu corpo pelo que tanto aguentou e por tanto que a minha alma aprendeu nesta jornada!

Lê os primeiros dois artigos desta minissérie aqui e aqui.

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