NEGAR A IDADE QUE TEMOS

NEGAR A IDADE QUE TEMOS

xx.jpgCom o passar dos anos, torna-se muito comum começar a disfarçar ou até mesmo negar a idade que se tem. Porque será que isso acontece? Será que não é digno envelhecer? Vivemos efetivamente numa sociedade patriarcal e, se repararmos, no ocidente, tanto as pessoas mais jovens e nomeadamente as mais velhas são completamente desvalorizadas, talvez pelo facto de serem vistas como não produtivas e trazerem custos ao estado. Então parece que a sociedade se vai resumindo a um pequeno nicho de uma faixa etária algo produtiva e assim útil. Crianças, jovens, idosos, mulheres grávidas ou de licença ou que têm filhos, dão um trabalho do caraças, então, quando somos jovens queremos aparentar ser mais velhos, mas quando a idade vai passando, começamos da mesma forma a querer ser mais jovens. Ou, pelo menos, aparentar isso. Nessa altura, perguntar a idade, nomeadamente a uma senhora, tornou-se uma falta de educação, porque, claro, sempre soubemos que um homem com cabelo grisalho tem seu charme, já a mulher… melhor pintar, o rosto e o corpo plastificar e procurar de alguma forma ter um comportamento mais jovem e muitas vezes desadequado para parecer mais cool!

E pergunto eu, porque permitimos que nos deixem fazer isto? Porque permitimos que nos digam que é errado envelhecer quando é um privilégio do qual nem todos podem usufruir?

Associamos o passar da idade a reformas, a uma coleção de problemas de saúde, a inutilidade, a depressões e tristezas, a solidão… e vamos então negando e disfarçando a idade na esperança de que essa ilusão, de alguma forma, nos possa garantir a eterna juventude. Sim, uma ilusão que nos rouba a vivência real do presente, porque enquanto tentamos ser o que não somos e viver uma vida supostamente mais jovem, perdemos a oportunidade de viver o que a nossa idade atual nos poderia oferecer. Então, “camadas” da vida vão sendo aniquiladas por outras ilusoriamente mais entusiasmantes.

O que poderíamos dizer sobre as vantagens do passar da idade?

Em muitas sociedades orientais e em determinadas culturas, é interessante ver e perceber o quanto ser mais velho é um estatuto hierárquico. Os mais velhos são vistos como mestres, como sábios, aqueles a quem os mais novos procuram quando necessitam de uma orientação, um conselho maior. Talvez seja isso que a nossa sociedade ocidental está a perder, essa beleza encontrada na sabedoria anciã.

A sabedoria adquire-se com a idade, fruto da experiência de vida, mais tempo para desfrutar, viajar, conhecer outras pessoas, iniciar projetos que não foi possível concretizar na idade mais jovem enquanto se trabalhava de sol a sol. Em relação à saúde, tudo se pode ir prevenindo adotando estilo de vida mais saudável, quantas pessoas mais velhas são completos atletas e metem no bolso os mais jovens?

Cada ruga, cada cabelo branco, demonstra a beleza de uma vida já vivida. Esperemos nós que essas rugas continuem a aparecer, tal como os cabelos brancos, pois são sinais de longevidade e creio que é isso que todos pretendemos.

Assumir a idade que se tem é assumir o quanto se vive e já viveu, é não se submeter aos padrões e estereótipos que a sociedade impõe e nos faz escravizar pela busca da juventude que se vai perdendo. Ideias que submetem homens e, maioritariamente, mulheres a automutilações do próprio corpo e da alma e nos poderá fazer perguntar um dia, como teria sido se não tivesse procurado alterar o percurso natural de mim mesma?

Lembro-me que quando era adolescente adorava aparentar ser mais velha, esperei ansiosa pelos 18 anos. A partir daí, estranhamente, percebi que o tempo passa a correr. Talvez porque a ansiedade desapareceu e preferi usufruir do que cada ano me oferece e, nesta jornada, acabei de completar o meu segundo ciclo de 18 anos. Costumo dizer que adoro fazer anos (e espero que assim continue), porque adoro celebrar o dia em que a minha alma resolveu visitar e morar no planeta Terra. Espero envelhecer bem e ter uma vida bem longa. Claro que sei que o preço a pagar por isso, é desfrutar desta viagem que é viver com as rugas e os cabelos brancos e, quem sabe, um dia poderei dizer: “hoje faço 100 anos”.

A vida que queremos e como a queremos viver somos nós que escolhemos, a forma de envelhecer também, importante é ter consciência do sistema que nos envolve e não permitir que esse mesmo sistema nos domine.

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