AS MORTES DA VIDA

AS MORTES DA VIDA

SONY DSCNo momento em que nascemos manifesta-se um novo início, mas ao mesmo tempo um fim, representado pela saída do útero materno. Este final é como se simbolizasse algo que termina definitivamente, como se de uma morte se tratasse. Ouvir esta palavra é difícil para a nossa sociedade, porque a associamos ao final de algo e ao desconhecido, vemos então a morte como algo negativo, fatídico e da qual não podemos fugir.

 Quando falamos em morte, pensamos no seu sentido literal e nas pessoas que amamos e que já não estão connosco e o sentimento é de algo que “rouba” a vida. Mas se repararmos bem, nascemos e morremos todos os dias e a cada momento. Nenhum dia é igual ao anterior, nenhum momento, nenhum minuto é igual ao que já foi, é uma sucessão constante do que termina e inicia.

 Ao longo da vida temos várias etapas: entrada na escola, novos amigos, velhos amigos e aqueles com quem perdemos o contacto, mudamos de casa, de cidade, de país, temos relacionamentos que começam e finalizam, vivemos sozinhos ou casamos, temos filhos, um novo trabalho e um anterior… E assim vai sendo até ao dia em que “a tela se feche” definitivamente. No entanto, entendemos que cada um destes processos implica a entrada de algo novo na nossa vida e ao mesmo tempo um final. Esse final representa a morte de algo, um estado que deixa de ser, para dar lugar a um novo. A isso chamamos renascimento.

 O lidar mal com a morte, pode ser o motivo da dificuldade que sentimos quando alguma coisa nas nossas vidas está prestes a mudar, porque temos medo de deixar aquilo que conhecemos e medo do que o novo nos trará. Até podemos querer muito uma nova fase, mas como é desconhecida, tememos.

 Procurar compreender que a cada momento há um início e um final pode tornar tudo mais fácil, mesmo quando isso implica a morte física de alguém. Sim, é um processo doloroso, mas essa compreensão facilita a transformação.

 É importante honrar aquilo que já foi, viver-se o luto. Isso permite dar o espaço e o tempo necessários à adaptação de uma nova condição. Permite exprimir a emoção e a compaixão por nós mesmos. Este luto aplica-se a cada transformação, mudança de vida e, claro, ao momento em que alguém que amamos morre fisicamente. Não há dor maior que essa, mas compreendermos esta dimensão, permite-nos perceber que tudo está como tem de estar, que há situações impossíveis de evitar, que fazem parte da vida e nos fazem evoluir. Esse é um dos maiores propósitos da vida!

 Para existir essa evolução é necessário existir transformação, para transformar é necessário morrer e nascer constantemente; para morrer e renascer é preciso viver, porque, sinceramente, se assim não fosse, que piada teria a vida?

Dedicado ao meu avô, a sua morte fez-me experienciar pela primeira vez a partida de alguém que amava. Através disso descobri que só deixei de o ver e de conviver com ele, porque o amor continua a existir. Dedicado também à minha sobrinha Carlota, que nasceu e trouxe tanta alegria um mês depois de o meu avô ter partido e me mostrou como é sábia a vida, sempre em equilíbrio. Morte e Vida sempre de mãos dadas.

 

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